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O perigo do evolucionismo teísta e “O Teste da Fé”

NOTA DO EDITOR

Caro leitor,

Postamos nesta oportunidade o estudo do articulista do NAPEC, pr. Robson Fernandes. O texto aborda uma análise crítica da obra “O Teste da Fé”, de Ruth Bancewicz.

Como o NAPEC preza pelo debate teológico sadio, bem como recentemente promoveu um sorteio/campanha sobre o referido livro, divulgamos também através desta nota o texto “Dez questões sobre o “Teste da Fé”: uma resposta inicial aos críticos” do pr. Guilherme de Carvalho [Leia aqui].

Como instituição, incentivamos a discussão teológica, promovendo um “debate” sadio entre as ideias destes autores cristãos e comprometidos com as Escrituras. Incentivamos o leitor a manter a postura bereana, sempre examinando nas Escrituras como as coisas realmente são (Atos 17.11).

Boa leitura!

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INTRODUÇÃO

O debate entre fé e ciência sempre foi acirrado e cheio de momentos acalorados, e nem sempre positivos ou construtivos. Na verdade, o início do debate envolvia a questão entre criacionismo e evolucionismo. Com o passar do tempo a questão foi ampliada e surgiu o evolucionismo teísta, ou teísmo evolucionista.

Na história recente da Igreja esse tem sido um tema recorrente e cada vez mais corriqueiro e popular, especialmente com a frequência cada vez maior de cristãos na Academia. Na verdade, Cristianismo e Academia sempre foram aliados e suas histórias sempre estiveram interligadas, especialmente quando nos damos conta que o surgimento das universidades no Ocidente ocorreu no seio da igreja, a exemplo de Oxford, Cambridge, Yale, Harvard, Princeton, Salerno, Bolonha, Universidade de Paris, Salamanca, Universidade de Genebra etc. Na época da Reforma Protestante haviam trinta e três universidades no seio da igreja.

No Brasil, este debate nunca foi muito popular, especialmente porque criou-se uma dicotomia entre ambos. Se na Universidade o assunto Deus é algo referente ao metafísico e se encontra no âmbito da religião tão somente, sendo uma questão de especulação e fé, na igreja o assunto ciência foi tratado durante muito tempo como sinônimo de apostasia e secularização. Mas, ambos os pensamentos estão equivocados, e se por um lado esse pensamento distorcido que busca retirar Deus do debate científico tem suas raízes no Iluminismo do século XVIII, a retirada da ciência do seio do cristianismo é resultado da apatia da igreja e da falta de manutenção de seu mandato cultural e social.

Temos visto, portanto, um desequilíbrio no desenrolar dessa história.

Por outro lado, com o crescimento cada vez mais constante de cristãos no meio científico o debate tem se tornado cada vez mais comum, e com a facilidade de expansão da informação pela informática esse tema, Fé e Ciência, se torna quase que global ao mesmo tempo. Porém, o debate atual não envolve apenas Criacionismo e Evolucionismo, mas foi acrescido do Intelligent Design (Design Inteligente). Também, o meio termo entre Criacionismo e Evolucionismo tem ressurgido com maior frequência, e este é denominado de Evolucionismo Teísta.

O QUE É O EVOLUCIONISMO TEÍSTA?

O apologista católico Roberto Cavalcanti dá a seguinte definição:

Os alunos são ensinados que “o ser vivo é o resultado de evolução, em certas condições, do ser inanimado” e que “vida é um passo superior respeito da qualidade na evolução das formas de movimento”. Ensinam que a vida apareceu espontaneamente, no meio aquático, por combinações químicas acidentais, na presença da luz do sol, muito embora a abiogênese tenha malogrado com os experimentos de Pasteur.

É notório que a tese do evolucionismo teísta provém de uma mistura de antigas teses filosóficas e teológicas pagãs, e que voltou a ser acreditada na Era Contemporânea em razão do triunfo do racionalismo ateu, que contesta milagres e acha possível fazer ciência sem Deus. (CAVALCANTI, 2011, online)

Ainda, Wellington Rodrigues e Rosilene Motta afirmam o seguinte:

Um quarto dos professores 24% adotaram a idéia predominante hoje nos meios religiosos e científicos, isto é, o teísmo evolucionista, pois entendem que “a Bíblia pode ser interpretada de forma compatível com a idéia de que, biologicamente, o homem é o resultado de um processo evolutivo, desde que se creia que em algum momento Deus lhe conferiu atributos espirituais especiais.” Esse posicionamento exige uma leitura simbólica para os relatos da criação em Gênesis, aceita a evolução insistindo na necessidade de uma criação especial para a alma humana. Foi fazendo coro à essa opinião que o papa João Paulo II afirmou em 1996 que “a teoria da evolução é mais que apenas uma hipótese. […] a evolução é compatível com a fé cristã”. (RODRIGUES; MOTTA, 2011, p. 11)

Contudo, o Dr. Marcos Eberlin (apud BORGES, 2013) afirma que “a evolução é péssima ciência. O evolucionismo teísta é péssima ciência somada com péssima teologia e filosofia. O criacionismo é ótima teologia com ótima filosofia, que se apoia hoje em ótima Ciência, Ciência com C maiúsculo; a que é livre das amarras do materialismo”.

Também, o Dr. Wayne Grudem, no prefácio do livro Should Christians Embrace Evolution aponta oito razões pelas quais o cristianismo bíblico é contrário a evolução teísta.

O ULTIMATO DO EVOLUCIONISMO TEÍSTA NO TESTE DA FÉ

Dentro desse contexto de debates e diálogos entre Fé e Ciência, a Editora Ultimato tem patrocinado o lançamento do Projeto Teste da Fé no Brasil, com a presença da Dra. Ruth Bancewicz, PhD em genética pela Universidade de Edimburgo, pesquisadora associada ao Instituto Faraday para Ciência e Religião e que trabalha na interação entre ciência e fé. A propaganda feita na divulgação desse projeto gira em torno da comprovação da existência de Deus no meio acadêmico e como a fé pode ser mantida por cientistas. Contudo, o que pouco tem sido dito é que tal projeto visa implantar tanto na igreja quanto na universidade o conceito de Evolucionismo Teísta.

O que muitos não sabem, ou fazem questão de ocultar, é a íntima relação entre o evolucionismo e o liberalismo teológico. Sobre essa relação o Dr. Augustus Nicodemus faz a seguinte afirmação:

Os liberais acreditam que a Igreja Cristã se perdeu completamente na interpretação da Bíblia através dos séculos e que somente com o advento do Iluminismo, do racionalismo e das filosofias resultantes é que se começou a analisar criticamente a Bíblia e a teologia cristã, expurgando-as dos alegados mitos, fábulas, lendas, acréscimos, como, por exemplo, os mitos da criação e do dilúvio e de personagens inventados como Adão e Moisés, etc. Por considerar os relatos da criação, da formação de Adão e sua queda como mitos, os liberais tratam o livro de Gênesis como uma produção da fé de Israel escrita com o propósito de legitimar a posse e a permanência de Israel na terra. Acreditam que Gênesis foi redigido em sua forma final no período do exílio babilônico, por um editor que colecionou e colou juntos relatos díspares sobre a criação, a história do dilúvio, etc. Por não considerarem histórico o relato da criação, os liberais são, por via de regra, evolucionistas. Alguns acreditam que Deus criou o mundo mediante o processo da evolução. Mas, no geral, descartam completamente a idéia de uma criação do mundo e do homem ex nihilo, do nada, pela palavra do seu poder. (apud PORTELA, 2007, Online)

Essa foi, em outras palavras, exatamente a defesa feita pela Dra. Ruth Bancewicz no lançamento do livro Teste da Fé no Recife, no dia 12 de setembro de 2013, no auditório da Livraria Cultura no Shopping Riomar. Então, algumas de suas afirmações, na palestra de lançamento, merecem ser comentadas para “clarear” mais o nosso diálogo sobre o tema.

Ao falar sobre os cientistas e a comunidade acadêmica, Ruth Bancewicz afirmou que:

Talvez eles tenham sido ensinados que o Gênesis e a Evolução não são compatíveis. Então, eles rejeitam o cristianismo. Ou talvez hajam várias outras razões, e a mídia adora essa imagem de conflito, e eles não dão nenhum tempo, nenhum espaço, para outras vozes. Então, o Teste da Fé é sobre cientistas que preparam muito cuidadosamente sobre a fé e que consideraram coisas de diferentes aspectos.

Ou seja, o Projeto Teste da Fé diz respeito a tentativa de conciliação entre o Evolucionismo e o Cristianismo. Mas como disse o Dr. Augustus, isso conduz ao liberalismo teológico, que é caracterizado pela negação do caráter histórico da criação apresentado na narrativa de Gênesis.

Ainda, o Dr. Augustus Nicodemus explica a relação existente entre o Teísmo Aberto (Teologia Relacional) e o Evolucionismo Teísta:

Eu nunca havia atentado para o fato de que o teísmo aberto oferece o tipo de deus que alguns evolucionistas teístas tanto precisavam para ser coerentes em sua teoria. A idéia me estalou nesta segunda, conversando com os cientistas cristãos do Discovery Institute em Seattle, que acabam de lançar um livro “God and Evolution” que promete ser uma das críticas mais pertinentes e sérias ao evolucionismo teísta.

Explico.

O evolucionismo teísta acredita que Deus existe e que “criou” a vida na terra através daquilo que a teoria evolucionista chama de processo não dirigido ou intencional, em que mutações acidentais e aleatórias levaram gradativamente à seleção natural e à sobrevivência das espécies mais aptas.

O grande problema aqui com esta teoria são as palavras “não dirigido”, “aleatório” e “acidental”. Este conceito é fundamental na teoria darwinista. Na verdade, é um de seus pilares. O conceito da evolução repousa neste princípio de que as mutações ocorreram de forma randômica, ao acaso. Como, então, integrar o conceito de mudanças aleatórias com a supervisão do Deus cristão, que é onisciente, onipresente e onipotente? Se Deus é onisciente, como poderia ter inventado um processo natural que se desenrolaria de maneira totalmente imprevisível, acidental e randômica, totalmente fora de seu controle ou conhecimento?

A solução é o deus do teísmo aberto. Esta “divindade”, de acordo com os teólogos relacionais, desconhece o futuro e não sabe o que vai acontecer no universo nos próximos minutos. Ou seja, ela serve perfeitamente como o deus do evolucionismo teísta. (apud PORTELA, 2007, Idem)

A percepção que o Dr. Augustus teve sobre a relação existente entre o Evolucionismo Teísta e o Teísmo Aberto explica claramente a direção da linha teológica seguida pela Editora Ultimato, que continua publicando os livros de Ricardo Gondim, que ensina o Teísmo Aberto; de Ed Rene Kivitz que afirmou que Adão e Eva eram um mito, que a alma morre quando o ser humano morre e que defende abertamente o universalismo[1]; Luiz Longuini, autor do livro Novo Rosto da Missão, em que propõe uma aproximação do Conselho Latinoamericano de Igrejas e da Fraternidade Teológica Latino Americana, que promovem a Teologia da Libertação e o ecumenismo, entre outros.

Portanto, não é de admirar que ao seguir essa linha de distorções teológicas, o resultado da Ultimato fosse o apoio e patrocínio do Evolucionismo Teísta dentro e fora da igreja.

Por tudo isso, o Dr. Augustus afirma que “os evolucionistas teístas deveriam mudar o nome para evolucionistas “deístas”, uma vez que estes tais acreditam numa divindade remota que criou o mundo como um relógio, deu corda e simplesmente afastou-se”, e continua ao afirmar que “O deus do evolucionismo-deísta-aberto não tem a menor idéia onde tudo isto vai parar” (apud PORTELA, 2007, idem).

Então, exatamente como já havia sido dito, essa é a conclusão natural do pensamento daqueles que fazem parte do Teste da Fé. Devemos observar o que a Dra. Ruth falou no lançamento do livro em Recife (12 set 2013):

Gênesis é um livro antigo, mas os cristãos acreditam que ele é verdade. Que é sobre eventos que realmente aconteceram. Mas, como uma estória sobre seis dias de criação pode ser verdade quando a ciência moderna mostra para nós que o universo na verdade tem bilhões de anos? Certamente essas duas estórias são incompatíveis. Então, a questão resumida da resposta de Francis Collins à essa pergunta é que a Bíblia não é um livro de ciências. É possível que uma obra seja verdadeira e figurativa ao mesmo tempo. Os poemas de amor expressam coisas que são profundamente importantes, mas usam uma linguagem simbólica. Por exemplo, meu amor é como uma rosa vermelha, ou como o poema que diz que eu vaguei como uma nuvem. É importante saber qual o estilo da literatura está sendo usado e como lê-lo. Se você nunca leu nada além de prosa e viesse aqui na livraria e comprasse um livro de poesia acharia bastante confuso. Mas se aprendesse um pouco mais sobre o autor, escritor, sobre o estilo usado na escrita e quais as simbologias e símbolos que o autor usou na época em que escreveu esses poemas você poderia começar a entender o significado. Você estaria respeitando a intenção do autor para aquele texto. Naturalmente o Gênesis é mais importante que um poema de amor, mas o princípio em questão é similar.

E mais, ao final de sua palestra a Dra. Ruth ainda afirmou:

Há algumas maneiras significativas de escrever na linguagem hebraica. Elas mostram que Deus é um Deus e estas construções marcam o Gênesis como sendo algo bastante único, diferente de vários outros relatos sobre mitos da criação. Também é importante manter o Gênesis no contexto da Bíblia como um todo. Existem outras histórias sobre criação na Bíblia. Você tem que olhar para os Salmos, para o livro de Jó também.

Em primeiro lugar, já fica claro que a interpretação bíblica da Dra. Ruth é guiada não por princípios hermenêuticos ou exegéticos, mas por elementos externos, e esses são os elementos evolucionistas. Ela mesma disse: “como uma estória sobre seis dias de criação pode ser verdade quando a ciência moderna mostra para nós que o universo na verdade tem bilhões de anos?”. Isto é, se a Bíblia diz algo e a ciência mostra outra conclusão, a opinião cientifica deve prevalecer e guiar a interpretação bíblica. Portanto, vemos claramente que não há uma seriedade teológica na interpretação da Escritura.

Em segundo lugar, o Teste da Fé já parte do pressuposto da confiabilidade da datação evolucionista, que atribui bilhões de anos ao universo. Mas como dar credibilidade a uma opinião científica que apesar de ser apresentada como confiável muda constantemente? Dizemos isto porque na época em que Darwin escreveu Sobre a Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural (Origem das Espécies), em 24 nov 1859, a idade da Terra era “cientificamente” determinada em 100 milhões de anos; Setenta e seis anos depois, em 1932, passou a ser estimada “cientificamente” em 1.6 bilhões de anos; Quinze anos depois, em 1947, passou a ser estimada “cientificamente” em 3.4 bilhões de anos; E vinte e nove anos depois, em 1976, passou a ser estimada “cientificamente” em 4.6 bilhões de anos até hoje. Para piorar, já sabemos que alguns cientistas estão, atualmente, estipulando outra idade para a Terra e o Universo.

Em terceiro lugar, o estilo literário do Gênesis é negado, esquecido e ignorado, para que o texto seja identificado como um escrito “figurativo”, a exemplo de um poema. Então, a classificação do gênero literário de Gênesis 1 é mudado de narrativa para poético.

Para tratar da interpretação, segundo o gênero literário, Gordon Fee, em seu livro “Entendes o que lês”, faz a seguinte afirmação:

A Bíblia contém mais do tipo de literatura chamado “narrativa” do que qualquer outro tipo literário. Por exemplo, mais de 40 por cento do Antigo Testamento é narrativa […] Os seguintes livros do Antigo Testamento são compostos, em grande medida ou inteiramente, de matéria narrativa: Gênesis, Josué, Juízes, Rute […] (FEE, 2008, p.63)

Portanto, o livro de Gênesis não faz parte do gênero poesia, e sim narrativa, e “as narrativas são histórias” (FEE, 2008, p.63). Por isso, a argumentação da Dra. Ruth é falha, especialmente ao tratar o Gênesis como poesia para lhe dar outra interpretação que não aquela que está clara e implícita no próprio texto. Porém, a defesa dos Evolucionistas Teístas está em afirmar que apesar de Gênesis ser uma “narrativa”, o capítulo 1 apresenta elementos distintos que o assemelham à poesia. Contudo, isto não é verdade, especialmente diante daquilo que Betty Bacon propõe em seu livro Estudos na Bíblia Hebraica, sobre Gênesis 1:

Os motivos de lermos este relato magnífico em hebraico são vários e de peso.

Primeiro, é modelo de narrativa clássica, cheio de dignidade e beleza, sem enfeites desnecessários ou repetições sem propósito. Aqui a grandiosidade dos fatos – aparece num estilo e numa linguagem adequada, que se encontram à altura do tema majestoso.

Além disso, é registro que veio a ser a base de muita meditação posterior de profetas e apóstolos, que nele iriam basear doutrinas importantes. Haja vista como Isaías, Amós e Jonas se referem ao fato chave da criação, para demonstrar a superioridade de Deus aos ídolos e Sua soberania total no mundo que Ele criou. Veja Is 40.18-28; Am 4.13 e 5.8; Jn 1.9. Observe também os reflexos dos primeiros capítulos de Gênesis nos escritos de Paulo, onde os fatos da criação são o alicerce essencial de teologia chave. (BACON, 1997, p.59)

Bacon afirma, portanto, após estudo do texto em seu idioma original, que o capítulo 1 de Gênesis não é do gênero poesia, e sim narrativa do tipo clássica. Também, é observado que a literalidade de Gênesis serviu de base para a formulação de “doutrinas importantes”, tanto por parte dos profetas como dos apóstolos. Isso quer dizer que a distorção do texto de Gênesis ou a sua interpretação de outra forma que não seja a literal (histórico-gramatical) levará à modificação de diversas outras passagens e doutrinas da Escritura. Ou seja, a aceitação do evolucionismo teísta, que rouba a literalidade do texto bíblico, não é algo simples e sem consequências, mas uma ação que desencadeará em uma série de desdobramentos na forma como a Escritura será vista e aceita.

Ainda, ao comentar Gênesis 1:2, Betty Bacon afirma que “alguns têm sugerido aqui a influência de mitos de criação de fontes pagãs, mas o ato divino da criação aconteceu antes de existirem os mitos” (idem, p.62).

Nesse mesmo sentido Walker Kaiser afirma que o gênero literário de Gênesis, do capítulo 1 até o capítulo 11, indica a natureza intencional literal da narrativa (KAISER, 1970, p.48-65); Franklin Ferreira e Alan Myatt afirmam claramente que “A doutrina da criação ajuda a distinguir o cristianismo de outras religiões e cosmovisões não-cristãs. Concordamos com Horrell, que diz que: Genesis 1 é plenamente histórico, mas também é forte na sua polêmica contra as religiões daquela época” (FERREIRA; MYATT, 2007, p.276). P. J. Wiseman afirmou que muitos erros são cometidos por se ignorar o fato óbvio de que Gênesis 1 é uma narrativa (WISEMAN, 1977, p.144). Os escritores do Novo Testamento entendiam Gênesis 1-11 como um texto narrativo e literal: Mt 19:4-5; 24:37-39; Mc 10:6; Lc 3:38; 17:26-27; Rm 5:12; 1Co 6:16; 11:8-9,12; 15:21-22,45; 2Co 11:3; Ef 5:31; 1Tm 2:13,14; Hb 11:7; Tg 3:9; 1Pe 3:20; 2Pe 2:5; 3:4-6; 1Jo 3:12; Jd 11,14; Ap 14:7.

Mesmo assim alguns veem o Gênesis como uma poesia – simplesmente. Mesmo que esse seja o caso, e mesmo que a estrutura de Gênesis 1:1 à 2:4 estejam estruturados em uma forma semelhante à poesia hebraica, denominada de paralelismo sintético, isso em hipótese alguma nega a historicidade do texto, como também pode ser observado em Êxodo 15 e Daniel 7, bem como em cerca de 40% do Antigo Testamento. Um fato histórico, preciso e literal pode ser escrito em forma de poesia e ainda assim ser histórico e preciso, a exemplo do Salmo 22 que é uma poesia, e ao mesmo tempo preciso em sua descrição messiânica.

Mas, ainda assim os Evolucionistas Teístas insistem na leitura alegórica do Gênesis porque só assim poderão dar-lhe o sentido que desejam, e este sentido é guiado pelo evolucionismo. Grant Osborne, em seu livro A Espiral Hermenêutica, comenta o seguinte:

A questão do gênero é um importante elemento no debate sobre a possibilidade de recuperar o significado pretendido pelo autor (Hirsch chama isso de “gênero intrínseco”). Todos os escritores expressam sua mensagem dentro de um determinado gênero, para que os leitores tenham regras suficientes pelas quais possam decodificá-la. (OSBORNE, 2009, p.32).

O método alegórico de interpretação da Escritura, segundo Pentecost (1998, p.33), é repleto de perigos que o tornam inaceitável. O seu primeiro grande perigo é que ele não interpreta a Escritura, pois despreza o significado comum das palavras para dar asas a todo tipo de especulação fantasiosa. Por isso Pentecost afirma:

[…] os grandes perigos inerentes a esse sistema são a eliminação da autoridade das Escrituras, a falta de bases pelas quais averiguar as interpretações, a redução das Escrituras ao que parece razoável ao intérprete e, por conseguinte, a impossibilidade de uma interpretação verdadeira das Escrituras.

Ainda, Fritsch ao falar sobre a interpretação alegórica da Escritura afirma que “de acordo com esse método, o sentido literal e histórico das Escrituras é completamente desprezado, e cada palavra e acontecimento é transformado em alegoria de algum tipo, já para escapar de dificuldades teológicas, já para sustentar certas crenças religiosas estranhas” (apud PENTECOST, 1998, p.32).

Por isso, ao pretender mudar o gênero literário do livro, ou pelo menos do capítulo 1 de Gênesis, o que os evolucionistas teístas querem na verdade é mudar as regras de interpretação daquela passagem para que ela diga aquilo que eles desejam, aquilo que lhes é conveniente. Querem alegorizar o que não é alegórico.

Em quarto lugar, o argumento para a interpretação alegórica do Gênesis repousa na ideia do Sensus Plenior[2]. Com isso, o que importa para tais pessoas não é o que o autor escreveu em si, mas qual a sua intenção ao escrever aquilo. Então, a interpretação sai da análise histórico-gramatical do próprio texto e vai para o campo da especulação, ao tentar descobrir o que o autor queria realmente dizer e não disse. Para os evolucionistas teístas o Gênesis seria uma espécie de mensagem codificada, e que não está clara. Um dos problemas com esta defesa da busca por um sentido mais profundo, pela intenção do autor ao escrever determinada passagem, na verdade, é que foi um ensino criado no catolicismo do século XX, e que não existia do século I ao século XIX. A ideia de Sensus Plenior não afirma tão somente que o autor tinha o entendimento do significado completo de sua escrita, mas que há a possibilidade de uma passagem do Antigo Testamento ter mais de um significado que era conscientemente entendido pelo autor. Por isso, a ideia de Sensus Plenior, apesar de defendida por autores evangélicos conceituados, não possui base bíblica e sua origem é questionável por ter sido desenvolvida com o intuito de conduzir o público ao pensamento de que o magistério católico pode atribuir outro significado a passagem por serem, hipoteticamente, inspirados por Deus, a exemplo da autoalegação do papa que se denomina o sucessor de Pedro, o líder da igreja e infalível. Portanto, esses mesmos requisitos são pretendidos por aqueles que buscam não o sentido do texto, mas o sentido oculto e mais profundo que não se encontra na escrita do texto mas na intenção do autor.

Sobre o Sensus Plenior, Grant Osborne afirma que “o sentido mais profundo está relacionado ao sentido literal, que proporciona uma extensão ou desenvolvimento desse sentido, em vez de um significado completamente novo” (OSBORNE, 2009, p.420). Ou seja, aquele sentido mais profundo, ou intenção do autor ao escrever o texto, só será encontrado a partir do próprio texto em seu sentido literal, que é visto por meio da análise histórico-gramatical do próprio texto. Não existe um sentido oculto no texto que não seja o seu sentido literal.

Vanhoozer (2005, p.322) também afirma que “os estudiosos modernos da Bíblia continuam a se digladiar com a tensão entre “o que queria dizer” para o autor original e “o que quer dizer” para a igreja de hoje”, e continua:

Minha tese é a de que o “significado mais completo” das Escrituras – o significado associado à autoria divina – emerge apenas no nível do cânone inteiro. Como argumentou Wolfhart Pannenberg, o significado em geral – seja de palavras ou de eventos – depende em grande medida da relação entre a parte e o todo. (VANHOOZER, 2005, p.323)

Portanto, para Vanhoozer, o texto deve ser analisado em seu contexto geral. Por isso, então, Gênesis 1 não deve ser visto à parte de Gênesis 2, ou desconectado deste. Não estamos vendo nesses dois capítulos visões diferentes ou divergentes, mas complementares, e ambas devem ser lidas e entendidas em seu sentido literal.

Nesse sentido, a grande advertência que Kaiser e Silva (2009, p.198) fazem é a de que “nenhuma doutrina deve ser fundamentada em uma única passagem das Escrituras, parábola, alegoria, tipo, sensus plenior ou numa leitura incerta do texto”. Mas é exatamente esse o segundo erro dos evolucionistas teístas. Se seu primeiro erro é partir de uma fonte externa para o entendimento da Escritura (evolucionismo), o seu segundo erro é buscar fundamentar o ensino de dias-eras, bilhões de anos, evolucionismo etc a partir do uso da alegoria, sensus plenior e passagens isoladas da Escritura que têm sido vistas fora de seu contexto e com a descaracterização de seu gênero literário. Por tudo isso a ideia de evolucionismo teísta é uma agressão ao texto bíblico.

Christopher Hall, em seu livro Lendo as Escrituras com os Pais da Igreja, ao citar Deodoro, mesmo se referindo ao livro poético de Salmos, afirma:

Quando encerra seu prólogo aos salmos, Deodoro estabelece distinção entre história (a substância histórica de um texto), lexis (o sentido literal puro), theoria (o sentido elevado de um texto obtido mediante cuidadosa exegese do sentido literal) e alegoria. Ele desejava evitar a alegoria, porque ela está divorciada do sentido literal, histórico da Bíblia. Ela viola substância histórica do texto, à medida que o exegeta inventa significado do nada. Aqueles que introduzem a alegoria como instrumento hermenêutico, pois, “são descuidados acerca da substância histórica ou simplesmente abusam dela”. Eles possuem uma “imaginação vã, forçando o leitor a tomar uma coisa por outra”. (HALL, 2007, p. 181)

Ao citar Teodoro de Mopsuéstia, Christopher Hall relembra que o fundamento da narrativa bíblica é muito importante, especialmente para Teodoro, pois os alegoristas[3] agem “como se toda a narração histórica da Escritura divina de nenhum modo diferisse de sonhos à noite”. Hall ainda afirma:

Por exemplo, quando eles começam a interpretar a Escritura “espiritualmente”, como tratarão uma figura como Adão? A realidade histórica, declara Teodoro, desaparece totalmente quando Adão repentinamente “não é Adão, o paraíso não é paraíso e a serpente não é serpente”.

Gostaria de dizer-lhes isto: se eles fazem a história servir a seus próprios fins, eles não terão deixado nenhuma história. Mas, se é isto o que fazem, deixemo-los responder estas perguntas: Quem foi o primeiro ser humano a ser criado? Como aconteceu sua desobediência? Como nossa sentença de morte foi introduzida? Se a afirmativa deles é verdadeira, se os escritos bíblicos não preservam a narrativa de eventos atuais, mas apontam para alguma outra coisa, algo profundo que requeira compreensão especial – alguma coisa “espiritual”, como eles gostariam de dizer, que eles descobriram por que eles próprios são tão espirituais, então qual é a fonte do seu conhecimento?  (HALL, idem, p.186,187)

Teodoro acertou no ponto. Parece que, mesmo vivendo em 428 aD, estava prevendo o futuro debate que haveria 16 séculos depois. Isso porque é exatamente essa a questão aqui tratada. Se artifícios são utilizados para fazer parecer que o texto bíblico de Gênesis não é literal, o que acontecerá com o restante da Escritura já que esta está interligada e já que doutrinas fundamentais estão estabelecidas nessa narrativa? E mais, se o texto não diz o que aparenta dizer, mas alegoricamente quer dizer outra coisa, de onde vem, então, a fonte de informação para decodificar esse texto alegórico do Gênesis? É exatamente esse o ponto tratado aqui: A hipótese evolucionista tem sido utilizada como a chave decodificadora da Bíblia. Ou seja, a Bíblia só irá significar aquilo que o evolucionismo determinar. Por isso, os evolucionistas teístas não são intérpretes da Escritura, muito menos exegetas, mas sim aqueles que distorcem o seu real sentido. Não são intérpretes, mas falsificadores. Não fazem exegese[4], mas eisegese [5]. Não estão comprometidos com o real sentido do texto, mas com os seus interesses evolucionistas.

Curiosamente a própria Ultimato foi quem publicou o excelente livro de Christopher Hall (Lendo as Escrituras com os Pais da Igreja). Então, nos colocamos a perguntar: O que está havendo com os responsáveis pela revisão dos textos dessa editora, que ora publica um material de tão boa qualidade e ora publicam material que refuta as suas próprias publicações?

Seria a ausência de uma linha editorial confessional, ortodoxa e doutrinária clara a responsável por essa mudança brusca e contraditória na Ultimato, ou haveria alguma outra razão para isso?

Ao tratar sobre a história do embate entre Fé e Ciência, a Dra. Ruth utiliza um argumento teológico para a defesa do evolucionismo teísta, afirmando:

Havia essa ideia de que Deus havia estabelecido leis para os Israelitas. Então, nós esperávamos que o universo, assim como Deus o criou, também operasse por meio de leis que podiam ser descobertas por meios de experimentos e observação. Porque Deus é um Deus de ordem. Também havia essa outra ideia de que Deus era um criador independente, que criou o universo da maneira como Ele quis. Então você não poderia predizer como as coisas aconteceriam.

A questão da Dra. Ruth, e de todos aqueles que se fundamentam na visão evolucionista teísta, mais uma vez, está centralizada no agente externo: a ciência. A ciência para tais pessoas tem sido tratada como o “espírito santo” que guia à toda a verdade. Por isso afirmamos que para eles a ciência tem sido divinizada, pois é o meio capaz de conduzir à uma suposta correta compreensão do texto bíblico. O elemento de interpretação é externo, e por isso – mais uma vez – fazem eisegese e não exegese.

Por isso as conclusões teológicas dos evolucionistas teístas são baseadas nos pressupostos evolucionistas e não no entendimento Bíblico-textual da própria Escritura. Para eles, as alianças e as leis estabelecidas por Deus são entendidas à luz do evolucionismo. Aquilo que a teologia chama de Revelação Geral é alcançada e compreendida por meio da deusa ciência, que é tida como o instrumento para a correta compreensão bíblica.

Na verdade, na verdade, como diz Jesus, a ciência não é a senhora da razão, e muito menos uma deusa. Também não é a lente hermenêutica. Nesse momento lembro-me do Dr. Robert Jastrow, diretor do Observatório Mount Wilson e membro fundador do Instituto para Estudos Espaciais Goddard da NASA, que em seu livro God and the Astronomers afirmou:

Neste momento parece que a ciência nunca poderá levantar a cortina que cobre o mistério da criação. Para o cientista que teria vivido por sua fé no poder da razão, a história termina como um pesadelo. Ele escalou as montanhas da ignorância; está a ponto de conquistar o pico mais alto; ao alcançar finalmente a última rocha, é saudado por um grupo de teólogos que aí se assentavam havia séculos. (JASTROW, 1992)

Ruth Bancewicz afirmou que “os cientistas relatados no livro Teste da Fé são extremamente bem sucedidos. Então eles são ótimos modelos e exemplos para mim”. Na verdade a própria Dra. Ruth afirmou que Francis Collins é um dos principais responsáveis pela forma como o seu pensamento é direcionado. Sobre o Dr. Francis Collins e o Evolucionismo Teísta, o pastor Hernandes Dias Lopes disse o seguinte:

Francis Collins, o pai do projeto Genoma, um dos mais ilustres geneticistas da atualidade, no seu livro LINGUAGEM DE DEUS, professa ser um cristão. Porém, tenta conjugar o Cristianismo com o Darwinismo. O caminho que encontrou para essa aliança espúria foi afirmar que Deus criou o universo através da evolução.

Consequentemente, o relato bíblico de Gênesis 1 e 2 não pode ser aceito como um registro histórico literal. Sendo assim, Adão e Eva não existiram como relata a Bíblia. O relato da criação deve ser entendido como uma passagem pictórica e metafórica. O problema é que não podemos negar a literalidade de Gênesis 1 e 2 sem negar o restante das Escrituras.

Não podemos aceitar a tese do “evolucionismo teísta” sem desconstruirmos toda a Bíblia. O relato da criação está presente em todos os livros da Bíblia: lei, históricos, poéticos, proféticos, evangelhos, epístolas e Apocalipse.

Para subscrevermos a tese de Francis Collins precisaríamos negar a inerrância das Escrituras. Com quem vamos ficar? Seja Deus verdadeiro e mentiroso todo homem! Ficamos com Jesus, que disse: “E a Escritura não pode falhar”. Ficamos com o apóstolo Paulo que disse: “Toda Escritura é inspirada por Deus”. (LOPES, 2013)

Ainda, em entrevista à revista Veja (24 jan 2008), Francis Collins fez as seguintes afirmações:

Agostinho já dizia que não há como saber exatamente o que significam os seis dias da criação. Um exemplo de que uma interpretação unilateral da Bíblia é equivocada é que há duas histórias sobre a criação no livro do Gênesis 1 e 2 – e elas são discordantes. Isso deixa claro que esses textos não foram concebidos como um livro científico, mas para nos ensinar sobre a natureza divina e nossa relação com Ele. Muitas pessoas que crêem em Deus foram levadas a acreditar que, se não levarmos ao pé da letra todas as passagens da Bíblia, perderemos nossa fé e deixaremos de acreditar que Cristo morreu e ressuscitou. Mas ninguém pode afirmar que a Terra tem menos de 10000 anos a não ser que se rejeitem todas as descobertas fundamentais da geologia, da cosmologia, da física, da química e da biologia.

Essas declarações do Dr. Collins demonstram o seu desconhecimento exegético e hermenêutico do texto bíblico, demonstram que o mesmo desconhece que Gênesis 1 e 2 são complementares e não contraditórios, demonstram que a sua interpretação bíblica é realizada por influência dos fatores externos – como ciência – ao invés de serem guiados pelas informações contidas no próprio texto. Por isso, o Dr. Francis Collins sacrifica a exegese do texto de Gênesis para abrir espaço para o evolucionismo, como já pudemos ver anteriormente. Além do mais, apesar de ser cientista, o Dr. Collins ignora, consciente ou inconscientemente – não sabemos – as pesquisas sobre as datações que apontam para uma idade mais jovem da Terra, a exemplo dos experimentos do Dr. Russell Humpreys (pesquisa oceanográfica), Dr. Robert V. Gentry (pesquisa em radiohalos), Dr. Thomas G. Barnes (pesquisa do campo magnético da Terra), Dr. John Whitcomb e Dr. Donald B. DeYoung (pesquisa sobre a lua), Dr. Louis B. Slichter (pesquisa em geofísica), Dr. Keith L. McDonald e Dr. Robert H. Gunst (pesquisa do campo magnético da Terra). Isso tudo sem falar que mais recentemente já têm afirmado que uma nova “pesquisa indica que Terra é 70 milhões de anos mais jovem” (VEJA, Online, 17.07.2010).

É importante observar o que outros cientistas conceituados também têm afirmado. O Dr. Hannes Alfven[6] afirmou: “o que é “geralmente aceito” na teoria de formação estelar pode ser uma centena de dogmas insustentáveis que constituem uma grande parte da astrofísica atual” (2004. p.480). O Dr. Joseph Silk, professor de astronomia em Oxford, afirmou: “Ainda não podem ser determinados muitos aspectos da evolução de galáxias com qualquer certeza” (2001, p. 195). O Dr. Donald DeYoung, Ph.D em Física, afirmou: “A presença de cometas pode ser evidência que o sistema solar não é tão velho quanto é assumido frequentemente” (2000, p.49,50).

Acreditamos que toda a criação foi prejudicada pelo pecado e que por isso, uma busca pela observação de Deus através de meios simplesmente naturalistas conduzirá à erros de conclusões. Por isso o evolucionismo teísta tem falhado, porque os seus pressupostos são naturalistas por essência e por natureza. Por outro lado, a observação da natureza através da “lente” bíblica fará com que enxerguemos com mais clareza e nitidez e cheguemos à uma compreensão e entendimento de Deus mais corretos por meio da Revelação Geral, expressa mediante as coisas que foram criadas.

Portanto, não é a ciência que conduzirá à uma melhor compreensão da Escritura, mas é a Escritura quem conduz à uma melhor compreensão da ciência.

No lançamento do Projeto Teste da Fé em Recife, a Dra. Ruth teceu críticas ao Movimento do Design Intelligent (DI):

No centro do Movimento do Design Intelligent eu me preocupo que haja a questão do Deus das lacunas. Claro que não é o que eles estão visando fazer, mas isto é o que eu tenho visto acontecer. Eu já tive várias discussões com pessoas envolvidas nesse movimento, e agente não concorda simplesmente sobre ser algo que diz respeito a essas lacunas.

Para Ruth Bancewicz, e os demais seguidores do evolucionismo teísta, aquilo que eles chamam de “deus das lacunas” é visto como uma desculpa dos seguidores do DI para aquilo que não pode ser explicado. Então, essa evidência de design na natureza exposta através da complexidade irredutível[7], por exemplo, seria apenas um pretexto para dizerem que houve um projetista que criou aquele ser ou mecanismo.

Esse argumento da Dra. Ruth só reforça aquilo que o Dr. Augustus Nicodemus já havia falado: “os evolucionistas teístas deveriam mudar o nome para evolucionistas “deístas”, uma vez que estes tais acreditam numa divindade remota que criou o mundo como um relógio, deu corda e simplesmente afastou-se” (apud PORTELA, 2007, idem).

O DI afirma que os mecanismos, ou sistemas, existentes possuem uma complexidade tal que é impossível (improvável) que tenha surgido através de um processo evolutivo. Já para os evolucionistas teístas, isso seria apenas uma desculpa utilizada para não explicar o processo evolutivo. Dessa forma, esse processo evolutivo seria aquilo que o Dr. Augustus afirmou, quando Deus teria dado início ao processo e depois se afastado dele. Essa é uma consequência natural do pensamento evolucionista teísta: o Deísmo.

O Deísmo é uma postura filosófica e religiosa que admite a existência do Deus criador, mas que rejeita a Sua revelação. Exatamente como os proponentes do evolucionismo teísta têm feito ao descaracterizar a Revelação Geral, afirmando que esta Revelação Geral não é de todo clara e que só pode ser alcançada por meio do conhecimento científico. O Deísmo, ainda, considera a razão como a única via capaz de nos assegurar a existência de Deus, e por isso, rejeita a formulação de um pensamento teológico preconcebido que contradiga seus dogmas naturalistas. Isso é exatamente o que o evolucionismo teísta faz, pois manipula a teologia através de suas ideias naturalistas.

Por essa razão, identificamos o evolucionismo teísta como uma espécie de “Neoiluminismo”[8].

Ruth Bancewicz ainda afirmou:

Se você ainda não sabe ou não escutou falar sobre o que significa esse movimento do Design Intelligent, eu acho que a maior ideia central por trás desse movimento é de que há evidências de que o mundo foi projetado. Não da maneira mais geral em que agente chega e vê uma montanha e seus arredores e pensa: Caramba! Alguém criou isso aqui tudo! Mas no sentido em que há coisas específicas, como por exemplo: componentes de células que não poderiam existir decorrentes de uma evolução. Teriam que ser criados ou projetados. E aí, eles usam isso como evidência para esse Design Intelligent. E pela razão que EU ACREDITO QUE ESSAS COISAS NÃO PODERIAM EXISTIR FORA DO PROCESSO DE EVOLUÇÃO eu discordo deles e eu fico achando que é algo realmente pra preencher essas lacunas. O que eu quero dizer com esse “Deus das lacunas” é que se em algum momento você encontra evidências de que esses componentes poderiam ter surgido decorrentes da evolução você perde toda a base para acreditar em Deus. E se você usa essa falta de conhecimento, de evidência, sobre o por que que algo existe como razão e evidência para acreditar em Deus você coloca Deus somente preenchendo essas lacunas que você não consegue entender. E se você está usando Deus apenas para preencher essas lacunas você O vai tornando menor.

Portanto, sob o pretexto de piedade e devoção à Deus, os evolucionistas teístas, digo “deístas”, na verdade subtraem Deus do processo, ou pelo menos o entendimento de Deus por meio de uma teologia ortodoxa. Com o pretexto de não diminuir Deus, os evolucionistas teístas O retiram do processo, substituindo o ensino ortodoxo de Deus na Escritura pelos pressupostos naturalistas.

No final de sua preleção, ao ser perguntada sobre a sua posição, se era criacionista ou evolucionista, a Dr. Ruth Bancewicz respondeu:

Eu acredito que Deus pode ter criado o mundo da maneira como ele quis. E seja qual for o seu ponto de vista, nós temos que nos certificar de que nós não moldamos Deus à nossa própria imagem. Nós precisamos nos aproximar do livro de Gênesis de maneira humilde e reverente. E eu não posso chegar aqui e fingir que eu entendo todas as nuances e os ricos ensinamentos que estão ali naquele livro. Mas o meu pensamento tem sido guiado por um número de teólogos e acadêmicos da Bíblia como John Stott e Alister McGrath, e um professor de um seminário batista que também é um bioquímico e que escreveu um livro que está publicado em português, Ernest Lucas, Gênesis Hoje. Eu acredito que todos os cristãos concordam sobre a principal mensagem que o livro de Genesis traz: que há um Deus que criou tudo por contra própria, que não haveria limitação e o que Ele criou era bom. Ele criou os seres humanos à sua imagem, e lhes deu responsabilidade e nós nem sempre correspondemos a essas responsabilidades e que o nosso egoísmo nos separa de Deus e afeta o nosso relacionamento, uns com os outros e com o restante da criação. E eu acredito que essas são as questões centrais do livro de Gênesis, e eu acho que essa é a coisa mais importante pra gente pensar. O resto começa a ficar um pouco mais complicado.

Então, após não responder a pergunta que lhe foi feita, por uma razão óbvia!, a Dra. Ruth busca respaldar o seu pensamento em nomes conhecidos na Igreja, como John Stott e Alister McGrath.

Bem, o amado e saudoso irmão John Stott deixou um legado precioso para a igreja, especialmente no que diz respeito ao Discipulado, porém, não era perfeito em sua teologia, como certamente ninguém é. Diante do legado do “bom velhinho” acreditamos que muitos ficaram surpresos ao saber que o mesmo defendeu o aniquilacionismo e o evolucionismo teísta.

Da mesma forma o Alister McGrath, que surpreendeu alguns ao declarar que “Na minha opinião, as duas coisas são compatíveis” (ÉPOCA, Online, 09.05.2008), ao se referir à existência de Deus e o evolucionismo. Também, surpreendeu ao declarar não crer na inerrância bíblica (MCGRATH, 2007, p.21), afirmando que a defesa da inerrância bíblica e da autoridade da Escritura, de acordo com a Velha Princeton, do período dos Hodges e de Benjamin Warfield, têm origem no Iluminismo. Por isso, o verdadeiro conceito de inerrância bíblica é diferente. Portanto, afirma McGrath, esse conceito de inerrância bíblica “deveria ser colocado de lado” desde que se mantivesse a ideia de autoridade da Escritura Sagrada.

Tudo isso deveria nos servir de lição, ao atentarmos para o fato que não devemos alinhar nossos pensamentos completamente por aquilo que os teólogos dizem, já que não cremos no dogma da infalibilidade humana, como os católicos acerca do papa. Por outro lado, não deveríamos rejeitá-los tão rapidamente. Deveríamos alinhar nosso pensamento por aquilo que a Escritura determina, e se algum teólogo está de acordo com a Escritura, que seja bem vindo. Por isso, o Dr. Augustus Nicodemus afirma enfaticamente:

O fundamentalismo histórico nasceu em defesa da fé cristã, ameaçada, na época, pelo liberalismo teológico. Portanto, o fudamentalismo foi um movimento apologético de defesa da fé, porque entendia que a tarefa da Igreja cristã era defender a fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. Nesse aspecto, é positiva a disposição de se lutar em favor da fé bíblica, identificando inimigos potenciais do cristianismo, como o liberalismo teológico, o humanismo, o evolucionismo e o “evangelicalismo”, que tem, gradualmente, abandonado a doutrina da infalibilidade da Escritura e adotado o ecumenismo e o evolucionismo teísta. (apud PORTELA, 2007, Online)

Dessa forma, podemos ver claramente que o evolucionismo teísta nada mais é que – nas palavras do Dr. Augustus – um “inimigo potencial do cristianismo”. Pudemos perceber que a sua consequência natural, com o tempo, é simplesmente a adoção da negação da inerrância bíblica, adoção do deísmo, influência iluminista, aceitação do método alegórico de interpretação e por tudo isso é um dos meios que pode facilmente conduzir a Igreja ao Liberalismo Teológico.

Portanto, por todas essas razões o Dr. Marcos Eberlin afirmou que “Há duas coisas que detesto e combato, mas com respeito: o naturalismo e a evolução: uma que eu abomino, o evolucionismo teísta! E os lobos disfarçados de cordeiros” (apud FERNANDES, Online, 19 set 2013). Ainda, Enézio Almeida, coordenador do Núcleo Brasileiro de Design Inteligente, afirmou:

Darwin disse que se precisasse de ajuda externa (leia-se Deus) sua teoria da evolução seria bullshit. Estou denunciando aqui como heresia o evento Teste da Fé por promover justamente o que Darwin abominou – teísmo evolucionista. Péssima teologia porque Deus não é Todo-poderoso neste processo estocástico. Péssima ciência porque injeta o Deus das lacunas numa teoria científica. Cristãos liberais estão chocados com a minha denúncia deste Cavalo de Tróia. (FILHO, Facebook, 9 set 2013)

CONCLUSÃO

Diante de tudo o que foi exposto, precisamos entender que a solução não está no abandono do estudo da ciência. Muito pelo contrário. Muitos cientistas têm prestado um grande serviço à humanidade com suas descobertas. Ainda, o estudo da Teologia não pode ser visto como algo irrelevante ou secundário, já que a Teologia é o estudo de Deus e de Sua Revelação e como aplicar tal conhecimento à vida humana.

Já que nós, ortodoxos, cremos que a Escritura Sagrada é Inspirada, Inerrante, Infalível e Suficiente, devemos mantê-La como guia de nossas vidas. Dessa forma, não é a ciência quem deve guiar a interpretação bíblica, pois isso seria eisegese, mas a Bíblia quem deve apontar a direção na qual devemos seguir e a forma como devemos interpretar o mundo e a ciência. E se em algum momento a ciência diz algo e a Escritura Sagrada diz outra coisa diferente, que fiquemos com a Escritura, pois é Ela quem jamais passará (Mc 13:31).

Por último, precisamos entender que muitos teólogos foram, e ainda são, grandemente usados por Deus para nos orientar, mas isso não lhes condiciona à posição de infalíveis nem inerrantes. A história mostra que muitos grandes homens de Deus falharam e se equivocaram em certos momentos. Portanto, sabemos dos benefícios legados à Igreja por B. B. Warfield, Augustus Hopkins Strong, C. S. Lewis, Alister McGrath, John Stott e tantos outros, mas isso não quer dizer que seus ensinos devam ser recebidos como inquestionáveis ou infalíveis, assim como os de Agostinho de Hipona e outros Pais da Igreja também não.

A grande chave de toda essa questão é que devemos ser como os bereanos, que mesmo diante da pregação do apóstolo Paulo verificavam se o seu ensino estava em conformidade com a Escritura, pois como disseram Franklin Ferreira e Alan Myatt: “qualquer tentativa de decidir entre as várias opções deve dar prioridade ao texto bíblico e não se deixar guiar pelo que está na moda entre os cientistas” (FERREIRA;MYATT, 2007, p.283).

A nossa oração é para que o Senhor Deus abra os olhos daqueles que têm abraçado o teísmo evolucionista para que enxerguem o mundo e a ciência através da lente da Escritura, e não o contrário, e para que a Editora Ultimato se lembre de onde e de como caiu, se arrependa, e volte a praticar as primeiras obras, antes que o seu castiçal seja tirado do lugar.

Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

Que o Senhor Deus, Criador Soberano de todas as coisas, nos ajude e guie nossos passos!

NOTAS

[1]. Universalismo é uma heresia que afirma que ao final de tudo todos serão salvos.

[2]. Em exegese bíblica, a expressão SENSUS PLENIOR (do latim “sentido mais pleno”) é usada para descrever “um sentido mais profundo do texto”.

[3]. Alegoristas são aqueles que utilizam o método alegórico de interpretação da Escritura, para que Ela não seja vista de forma literal.

[4]. Exegese é um termo grego (exegeomai, exegesis) e significa: retirar, derivar, extrair, expor. É o ato de extrair o real significado do texto através da análise do próprio texto, por meio de uma interpretação que leve em conta a história da passagem e seus aspectos gramaticais. Daí o termo histórico-gramatical.

[5]. Eisegese é o ato de introduzir, injetar, no texto alguma coisa que o interprete deseja que esteja ali, mas que na verdade não faz parte do mesmo. Por isso, quem faz eisegese força o texto, através de manipulações, para que ele diga o que na verdade não está lá.

[6]. O Dr. Hannes Alfven foi laureado com o prêmio Nobel de Física em 1970, por trabalhos fundamentais e descobertas na magnetohidrodinâmica e suas várias aplicações na física de plasma.

[7]. Complexidade irredutível é um conceito usado pelos proponentes do Design Inteligente segundo o qual certos sistemas biológicos possuem uma complexidade segundo a qual é altamente improvável que tenha surgido de forma evolutiva a partir de predecessores mais simples, ou “menos completos”, através de mutações aleatórias vantajosas e seleção natural ocorridas naturalmente, i.e. sem a interferência de inteligência, pois tais sistemas biológicos só poderiam ser funcionais se todas as suas partes estivessem presentes e montadas na ordem certa.

[8]. Neoiluminismo é um termo cunhado por este autor para se referir a pensadores modernos que mantém as bases do Iluminismo em seu pensamento.

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