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A inspiração divina da Bíblia

Os livros sagrados constituem a base do nutrimento ordinário que a Igreja oferece ao povo, e isso que neles se encontra é considerado como regra suprema da religião, fundamento da teologia e objeto de estudo. O livro é até objeto de veneração: a Bíblia contém a Palavra de Deus. Isso acontece por causa da inspiração divina: os livros sagrados têm Deus por autor e como tais são entregues ao povo.
Por outro lado, quando entramos nos particulares de cada livro, eles parecem símiles aos outros livros humanos, compostos por homens, com características que os ligam claramente à época e ao ambiente em que foram escritos. Como conciliar estes aspectos humanos com a qualidade de Palavra divina que a Igreja reconhece nos livros bíblicos? O que a Igreja pretende afirmar quando ensina que estes livros são divinamente inspirados? Elucidar esses pontos é o nosso objetivo nesse capítulo.
Não podemos considerar a Bíblia isoladamente. Ela adquire o seu sentido se vista no quadro global da revelação divina, acontecida através de palavras e obras, na história do povo de Deus. A inspiração dos livros sagrados deve ser entendida como um momento deste processo da história da salvação, do qual é parte integrante. Somente assim pode ser acolhida em todas as suas implicações e na sua complexidade. Por isso é nossa tarefa agora analisar o que é revelação.

1. Revelação
Deus quis revelar-se e fazer com que os homens conheçam o seu plano salvífico que consiste em fazer-nos participantes, em Cristo, da sua natureza divina. Por isso se manifestou com palavras e obras desde os primórdios da humanidade. Esta atividade divina, com a qual Deus fala aos homens e mulheres como a amigos e se detém com eles para convidá-los à comunhão consigo, constitui no seu conjunto aquilo que é chamado “revelação”.
A carta aos Hebreus começa de maneira solene: “Em múltiplas ocasiões e de muitas maneiras Deus falou outrora a nossos pais pelos profetas. Agora, nesta etapa final, falou-nos por um Filho, a quem nomeou herdeiro de tudo, o mesmo por quem criara os mundos e as eras. Ele é o reflexo de sua glória, expressão de seu ser; ele sustém o universo com a palavra potente de Deus; e, depois de realizar a purificação dos pecados, sentou-se à direita de sua majestade nas alturas, tornando-se um protetor mais poderoso, que os anjos tanto mais extraordinário é o título que herdou”.
Em Cristo encarnado temos a revelação final e plena, que se realiza em sua pessoa, em suas ações e em suas palavras, visto que nele fala o Pai. Porém antes da vinda histórica de Jesus houve uma revelação em muitos atos e em muitas palavras ditas pelos profetas e pelos fatos históricos. Então poderíamos falar de vários momentos de revelação que conduzem àquele que revela o Pai, Cristo, centro de toda a revelação.

1.1. Revelação pela Criação
A substância de toda a natureza é ser criatura e, como tal, revelação de Deus, ou manifestação de Deus. Tudo o que Deus realiza fora de si mesmo o manifesta, sendo uma espécie de língua: os céus proclamam a glória de Deus.
É uma imagem freqüente falar do livro da criação: “o que se pode conhecer de Deus está a seu alcance, pois Deus lho manifestou. Já que, desde a criação, sua natureza invisível, seu poder eterno e sua divindade são conhecidos por uma reflexão sobre as coisas criadas” (Rm 1,19-20). Ou seja, Paulo diz que as criaturas revelam Deus a uma mente que saiba refletir. E o livro da Sabedoria o formula da seguinte maneira: “pela magnitude e beleza das criaturas se descobre por analogia quem lhes deu o ser” (Sb 13,5).
A natureza pode nos conduzir a Deus através da percepção simbólica. A percepção de uma presença superior numa tormenta: a tormenta se transcende a si mesma, nela se descobre algo superior e imponente, algo sagrado e divino; não por meio de raciocínios, mas sob a forma de experiência profunda e emocional. O mesmo acontece com um profundo céu estrelado, com um vulcão em erupção, com a imensidão tranqüila de um mar, com o silêncio intimidante de uma floresta… É verdade que nesse caminho existe o perigo das deformações, conforme nos demonstra o estudo da história comparada das religiões. De qualquer forma esse é o caminho religioso de muitos povos. Isso é presente no Sl 29, que canta o Deus presente na tormenta: um fato da natureza é contemplado e submetido a uma reflexão na qual o trovão se aprofunda em voz de Deus. Assim também se viu no tumulto oceânico uma rebelião ou desordem sobre o qual Deus impõe a ordem de forma vitoriosa (cf. Sl 93, 3-4; Dn 7).

1.2. Revelação pela História
A natureza é o cenário da história. A história do ser humano revela o homem e a mulher. Pode ela também revelar Deus? Deus pode ser um personagem ativo na história humana e revelar-se nessa atividade? Uma primeira resposta dirá que sim. Contudo, para muitos, a história da humanidade é mais um escândalo que uma manifestação de Deus; e não é tão fácil ver continuamente a providência de Deus em todos os acontecimento da nossa vida, adversos, humilhantes, estúpidos.
Um historiador que quisesse escrever a história de Petrópolis teria que contar com um personagem, muitas vezes protagonista, que é Deus. É certo que para explicar corretamente alguns fatos históricos, ele precisaria de uma luz penetrante, a fé. Um historiador agnóstico teria que registrar alguns fatos enigmáticos que passam a determinar a história da cidade. O agnóstico diria sobre esse fato: “Sem explicação até o momento”. Aquele que crê, invés, recolheria o fenômeno e explicaria o seu verdadeiro sentido. É verdade que para explicar o sentido profundo escondido no fato ele usaria certos meios narrativos que não estão previstos no método da historiografia moderna. Mais ainda, só leitores que crêem entenderiam de fato a história dessa cidade. Isso aconteceu com episódios bíblicos: eles queriam narrar a verdadeira história, a profunda, a que é entendida à luz da fé. E essa história tem um protagonista: Deus.
Ora, quando reduz um pouco a sua transcendência para intervir na história, Deus manifesta a sua presença e a sua ação. Se reitera as intervenções, até criar uma continuidade de ação, as revelações particulares, que se assemelhavam a pontos, unem-se numa linha e a linha esboça uma figura. A figura de uma continuidade e de uma constância: Deus revela-se em sua atuação constante, e o homem pode conhecê-lo como uma pessoa amiga e exigente, clarividente e protetora. Deus revela-se na história.
O que a história é para um povo a biografia é para um indivíduo: também este, refletindo sobre a própria vida, pode descobrir uma série de pontos de intervenção divina especial e traçar sobre eles uma linha, compondo com essa linha uma figura, que revela Deus. Não nos esqueçamos que essa revelação privada pode ser comunicada a outros, partilhada com eles, e transformar-se em ponto de irradiação divina, já que todo povo se compõe de pessoas individuais.

1.3. Revelação pela Palavra
A palavra é a forma plena de comunicação humana e Deus escolheu também essa forma de comunicar-se, de revelar-se. Só que Deus fala-nos numa linguagem humana, por meio de homens. Mas pode Deus falar-nos em palavras humanas? Não pode fazer de outro modo, pois fala a nós, seres humanos.
Nesse processo existe, porém, um desnível de recursos. Se nós vamos traduzir essa complicada teoria da revelação ao povo simples temos que usar outros recursos, sobretudo no âmbito de conceitos. Para facilitar o ensinamento nós iremos incluir na explicação alguns elementos próprios do povo que talvez não estariam presentes num tratado teológico. Isso também acontece com a linguagem de Deus; o desnível é de uma ordem incalculável. Apenas num esforço de descer, Deus pode abrir-se a nós em nossa linguagem humana.
Essa descida de Deus foi denominada pelos padre gregos synkatabasis e traduzida pelos latinos como condescendentia. Assim João Crisóstomo recorre a esse princípio para explicar passagens difíceis da Escritura. Abordando a criação de Adão ele comenta: “Não tomes as palavras humanamente, mas atribui à fraqueza humana o estilo material. Pois, se não empregasse essas palavras, como poderíamos aprender os mistérios inefáveis? Não nos detenhamos nas meras palavras, mas entendamos tudo dignamente a partir de Deus.
Deus quis falar-nos em palavras rigorosamente humanas, ditas por homens. Nas palavras hebraicas, aramarias ou gregas dos autores, Deus está falando a mim. Jeremias fala com toda a sua alma, e quem está falando é Deus; Paulo fala, com toda a sua paixão, e Deus é que está falando. Realiza-se uma ação misteriosa, formulada na Segunda Epístola de Pedro: “Antes de mais nada, tende presente que nenhuma predição antiga ocorreu por desígnio humano; homens como eram, falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2Pd 1, 20-21). Os autores bíblicos falavam, em nome de Deus, pela ação do Espírito. Damos a essa ação do Espírito o nome de “inspiração”, e é ação do Espírito com vistas à palavra. A Bíblia provém de um sopro divino, de uma ação do Espírito Santo. E o resultado disso é: “Todo escrito inspirado por Deus serve para ensinar, repreender e educar na retidão” (2Tm 3,16).
Uma vez descrito o processo de revelação divina vamos nos deter na revelação através da Palavra contida na Bíblia. E a inspiração dessas palavras faz parte da atividade reveladora de Deus.

2. A Palavra Inspirada
Embora não haja menção explícita da inspiração nas páginas do AT, há muitas passagens que a sugerem. Somos informados, por exemplo, que foi por ordem divina que Moisés escreveu o livro da Aliança (Ex 24,4-5; 34,27) e que Jeremias registrou num livro os oráculos do Senhor (Jr 30,2; 36,2). Dessa forma os judeus acreditavam que todos os seus livros procediam de Deus. A Igreja Católica herdou essas Escrituras e aceitou o caráter sagrado delas. Jesus já as tinha citado como a Palavra de Deus (Mt 22,31; Mc 7,13; Jo 10,24-25).
A crença da Igreja na inspiração divina das Escrituras também é clara, com referência aos tempos mais antigos, na tradição dos Padres e no ensino dos teólogos de todas as épocas. Os Padres mais antigos classificaram as Escrituras de “oráculos de Deus” que foram “ditados pelo Espírito Santo, o qual usou os escritores sagrados como “instrumentos”. Mais tarde, os escritores falaram do Espírito Santo como o “autor” das Escrituras e afirmaram que ambos os Testamentos foram inspirados pelo Espírito. O ensino dos Padres sobre a inspiração pode ser resumido em duas afirmações: Deus é o autor da Bíblia; o escritor humano é instrumento de Deus.
Ao lado dessa tradição dos Padres, temos toda uma série de pronunciamentos por parte da Igreja e neles podemos traçar um constante desenvolvimento em busca da exatidão. Até o século V a Igreja esteve empenhada principalmente em definir e defender a extensão e o conteúdo da Palavra de Deus e foram elaboradas listas dos livros sagrados. Do século VI ao XIII, foi declarado repetidas vezes que esses livros são sagrados, porque Deus é o seu autor e também, em vista de certas heresias que minimizaram ou rejeitaram o Antigo Testamento, que Deus é o mesmo autor tanto do Antigo como do novo Testamento. No Concílio de Florença (1441) uma razão dessa última declaração foi proposta: Deus é o autor de ambos os testamentos, porque os escritores sagrados de ambos os Testamentos falaram sob a inspiração do mesmo Espírito Santo. Isso foi repetido pelo Concílio de Trento e pelo Vaticano I e o Vaticano II acentuou o que a Inspiração não é (cf. apresentação dos grupos).

2.1. Deus autor da Sagrada Escritura: a Patrística
Na palavra dos Padres e do Magistério é sempre sublinhada a autoridade de Deus que está à base da Escritura. Isso se exprime na fórmula que declara Deus “autor” dos livros sagrados. A fórmula teve origem no contexto das lutas contra as várias heresias dualísticas que se manifestaram do II ao IV século sobre a forma do gnosticismo, da doutrina de Marcião e do maniqueísmo. Comum a estas doutrinas era opor o Antigo e o Novo Testamento, quase tratando-os como duas economias opostas, com princípios diversos. Alguns chegavam a afirmar que pertencia a Satanás “as coisas que se encontravam nos profetas e na lei (Mani: cf. PG 10,1451ss). Contra essas heresias vem afirmado pelos Padres e pelo Magistério que Deus é o autor de ambos os Testamentos e que eles formam uma continuidade.
Santo Irineu: “Um e idêntico é o fundador do Evangelho e da Lei”(Adv. Haer., IV, 12,3: PG 7, 1005)
Santo Agostinho: “A igreja dos maniqueus considera erroneamente os dons do Antigo Testamento e do seu autor”(Contra Faustum 15,1: PL 42,303). “Como o único e verdadeiro Deus é o criador dos bens temporais e dos bens eternos, assim ele mesmo é o autor de ambos os Testamentos, porque o Novo é figurado no Antigo, e o Antigo é revelado no Novo” (Contra Adversarium Legis et Prophetarum I, 17,35: PL 42,623).
A fórmula “Deus autor” é retomada mais vezes e aparece também no Concílio Florentino (1442), no Concílio de Trento (1546), no Concílio Vaticano I (1870) e no Vaticano II (1965: Dei Verbum, 11).
É claro que tudo isso não indica que Deus é o autor literário, mas que ele é a origem da economia tanto do Antigo quanto do Novo.

2.2. A Inspiração a partir dos Medievais até Nossos Dias
Para os teólogos medievais a Escritura aparece como um tesouro que esconde uma riqueza sem limite. Nela, como já tinha dito Irineu, “nada é sem significado” (Adv. Haer., IV, 18,2: PG 7,1025), “nada tem nela que não possua qualquer mistério” (S. Bernardo, Super Missus est, 1,1: PL 183,55); “não tem página do livro sagrado que não testemunhe o Verbo encarnado” (Eriberto de Losinga, Sermo I). Em vista desse pensamento era necessário investigar a Bíblia no objetivo de explicar o relacionamento de todos os elementos com Cristo. Isso podia conduzir a uma engenhosidade artificial.
Outros autores do período medieval são sobretudo Cassiodoro, Isidoro de Sevilha, Beda o Venerável e Rabano Mauro.
Na Escolástica o franciscano Duns Escotus é o primeiro a elaborar, de modo amplo, os argumentos pelos quais a Escritura é uma obra inspirada. Depois aparece também a escola dominicana: Santo Alberto Magno e São Tomás de Aquino.
O Concílio de Trento não se encontra diante de erros resguardastes a origem divina dos livros sagrados e a sua autoridade. Esses pontos estão presentes na doutrina protestante. Por isso o Concílio se limita a afirmar a fé da Igreja nos livros sagrados do Antigo e do Novo Testamento, “porque um só Deus é autor dos dois”.
Um ponto importante do Concílio de Trento, com referência ao nosso argumento, é a extensão total da inspiração. Os Padres conciliares, após oferecer o elenco dos livros canônicos afirmam que todas as partes de todos os livros são inspirados. Não importa, portanto, se uma parte de um livro seja ou não religioso ou não conexo com a fé.
Após o Concílio de Trento aumenta o interesse pelos problemas relativos à origem divina do livro sagrado. Os motivos são diversos: os protestantes, mesmo reafirmando o caráter divino da Bíblia, tinham excluído do cânon alguns livros e isso suscitou tomada de posição da parte da Igreja. Precisa também recordar o surgimento das buscas científicas no início do século XVII, que começou a colocar os dados da Escritura em confronto com os dados das ciências positivas, estimulando a busca sobre os condicionamentos humanos aos quais podia estar colocado o livro sagrado. Dois nomes aparecem nesse tempo: Domênico Bañez e Leonardo Lécio.
Segundo Bañez a inspiração pode se tratar de três coisas: 1)ou que isso sobre o que se trata no escrito era desconhecido pelo autor, e lhe foi revelado por Deus; 2) ou que tais coisas eram já conhecidas pelo escritor, mas que ele se colocou a escrevê-las graças a uma moção especial divina e com certa assistência do Espírito Santo; 3) ou que as coisas reveladas vêm sugeridas e quase ditadas mesmo com relação às síngulas palavras. O ponto positivo em Bañez é que ele suscitou uma discussão acerca do que signifique a moção inspiradora e chamou a atenção para não tirar do prisma da ação divina também as síngolas expressões da Bíblia. Mas a teoria não deixava muito espaço para a ação humana do escritor, rendendo difícil a explicação da diversidade de linguagem e mentalidade existente entre os textos sagrados.
Lécio buscou outra explicação. Sua teoria pode ser afirmada em três sentenças: 1) para que um livro seja considerado Escritura sagrada não é necessário que as síngulas palavras sejam inspiradas diretamente do Espírito Santo; 2) não é necessário que as síngulas verdades e proposições sejam inspiradas imediatamente pelo Espírito ao escritor; 3) se um livro escrito sem assistência do Espírito por obra humana, o Espírito Santo testifica em seguida que não tem nada de falso nele, ele se torna Escritura Sagrada. Essas teorias de Lécio representam uma tentativa de explicar a diversidade dos livros e para isso exclui a necessidade de uma revelação de cada palavra.
Diante dessas validações se vai condenando um conceito demasiado rígido de Deus “autor literário” dos livros bíblicos. Passa-se a considerar, então, os aspectos humanos da linguagem da Bíblia, sem detrimento quanto à origem divina de sua mensagem.
O Concílio Vaticano I repetirá o cânon de Trento e acrescentará que os livros sagrados são inspirados. O Vaticano II repetirá as palavras de Trento: “Todos os livros seja do Antigo ou do Novo Testamento, com todas as suas partes, são inspirados” (DV 11).

2.2.1. Documentos do Magistério
Vamos elencar os principais documentos que tiveram maior importância doutrinal em ordem cronológica dando uma breve caracterização de cada um.
Encíclica Providentissimus de Leão XIII (18/11/1893): fala sobre os estudos da Sagrada Escritura, dando uma panorâmica completa sobre os estudos bíblicos na Igreja e sobre a sua necessidade. Convida também os estudiosos a resolver as dificuldades que apareceram com as ciências naturais, considerando a linguagem bíblica.
Decreto Lamentabili (02/07/1907) e Encíclica Pascendi (08/09/1907), contra o modernismo. O Lamentabili exclui a opinião que a inspiração permite o erro ou que se possa prescindir dela na interpretação da Bíblia. A Pascendi descreve e condena a opinião modernista sobre a inspiração, i. É, um impulso derivado da experiência religiosa própria de cada crente, contestando assim a verdade dos livros sagrados.
Encíclica Spiritus Paraclitus de Benedito XV (15/09/1920): exclui a distinção entre elemento religioso e elemento profano da Bíblia bem como afirma a verdade bíblica contrapondo assim a doutrina de uma verdade “relativa” a propósito do texto sagrado.
Encíclica Divino Afflante Spiritu de Pio XII (30/09/1943): recomenda o uso da ciência crítica, das ciências linguísticas, das ciências históricas e dos modos de expressão a fim de chegar a uma correta determinação do sentido literal e alcançar assim a veneração devida às palavras inspiradas.
Encíclica Humani Generis de Pio XII (12/08/1950): insiste sobre a autoridade divina da Escritura e dá indicações sobre a pesquisa do gênero literário dos primeiros capítulos do Gênesis.
Constituição dogmática Dei Verbum do Concílio Vaticano II (18/11/1965): Expõe a doutrina católica sobre temas da revelação, da tradição e da Escritura, da inspiração e do método exegético, do Antigo e Novo Testamento e da Escritura na vida da Igreja.
Além desses documentos ainda poderíamos citar cartas da Comissão Bíblica, instruções da mesma comissão, Admoestação do Santo Ufício e outros. Tudo isso revela a importância que o Magistério atribui à Bíblia, nosso código de fé.

2.3. Critérios da Inspiração
No Concílio Vaticano I se exprimiu que a Tradição transmitiu a existência da inspiração dos livros sagrados. Isso foi transmitido através da voz dos Padre e dos teólogos. Tal transmissão é um critério provativo do dogma da inspiração.
Para provar a existência da inspiração foram propostos outros critérios. Porém eles nem sempre se mostram eficazes.
O primeiro deles e o critério do apostolado. Os apóstolos eram infalíveis no ensinar a palavra divina, tanto oralmente quanto por escrito. Por isso tudo o que eles escreveram foi inspirado. Porém infalibilidade não quer dizer inspiração. Se um escrito é infalível não quer dizer que tenha Deus por autor. Então não bastava ser apóstolo para ter o dom da inspiração. Além do mais esse critério só valeria para o NT. E se fosse critério para o NT se deveria excluir da Bíblia segundo e terceiro evangelhos e os Atos, pois foram compostos por quem não era apóstolo.
O critério do apostolado pode ajudar no sentido que os apóstolos ensinaram que aqueles escritos são inspirados: é precisamente a tradição divina e apostólica que dá o critério para documentar a inspiração.
O segundo critério é o do testemunho do autor humano. Porém os escritores nem sempre tinham consciência de sua inspiração (cf Ap 22,18, que tinha essa consciência). Mesmo se os autores tivessem essa consciência não significaria que a inspiração fosse verdadeira.
Um outro critério é aquele defendido pelos irmãos separados, ou seja, o testemunho do Espírito Santo no ânimo do leitor: enquanto um lê um livro bíblico, sente em si a certeza que ele é inspirado e tal certeza vem de uma iluminação especial que o Espírito dá a cada crente. Esse é um critério ineficiente porque sujeito a alucinações e ilusões.
Esses critérios são ineficazes em provar que Deus seja o autor principal dos livros bíblicos, i. é, que eles são inspirados. Assim se conclui que o melhor e único critério para provar a existência da inspiração é a tradição divino-apostólica, custodiada e aprofundada e ilustrada pelo Magistério da Igreja.

2.4. Conseqüências da Inspiração
Se a Bíblia é inspirada por Deus ela não pode conter erros; ela traz a verdade. O surgimento das ciências abalou essa formulação. Recordemos do caso Galileu. Daí nascem tentativas de limitar a “inerrança” da Bíblia. Alguns quiseram restringir a inspiração somente às coisas espirituais deixando fora sobretudo as questões históricas. Para resolver esse problema o caminho é considerar os gêneros literários. A verdade é proposta diversamente nos textos em diferentes maneiras, seja de modo histórico, profético, poético e outros. Porém nós não devemos supor que cada palavra está certa na Bíblia. Devemos ver a verdade bíblica no conjunto de seus juízos e aí sim não existe erro. Se a inspiração é total, se todas as partes da Bíblia têm Deus por autor, a conseqüência é que nenhuma parte do livro pode ensinar o erro.
Quanto a essa doutrina da absoluta honestidade da Bíblia parece surgir fortes objeções, particularmente com respeito a algumas páginas do AT aonde se aprova, por exemplo, o extermínio de inteiras populações, ou se expõem fatos escandalosos, ou homens santos escolhem violentas penas contra os seus inimigos.

2.4.1. Histórias de Crueldade
Quanto às crueldades narradas pela Bíblia é preciso ter presente alguns pontos. 1) Às vezes o texto sagrado descreve simplesmente o que aconteceu, exprimindo a reprovação do autor ou com palavras explícitas ou no contexto (Jz 19,22-30). 2) Problema maior é quando na descrição de métodos cruéis de guerra se atribui a Deus o impulso ou a ordem (cf. Js 6,17.21.24.26; 8,8.22.24.26.28-29; 10,28, 10,30). Parece que todos os cananeus foram, por ordem de Deus, destruídos. Talvez nos ajude a compreensão o fato de que nos povos vizinhos a Israel se conheça exemplos de crueldade cometidos durante a guerra e atribuídos a uma ordem dos deuses do povo vencedor (na estrela de Mesha – IX séc. a.C. – o rei de Moab se gloria por ter assassinado o povo da cidade de Ataroth e apresenta o fato como espetáculo agradável ao deus Kamosh). Uma tentativa de resposta poderia ser buscada na visão que afirma que o dever de fidelidade a Jahweh exigiam de Israel a abstenção de qualquer contato perigoso com os pagãos. Tal exigência se traduzia, na situação do tempo, numa necessidade de aplicar um direito de guerra, em princípio, ilícito, mas considerado legítimo na mentalidade de então, e sancionado pela suprema potestade de Deus sobre a vida dos homens.
Essa explicação parece ainda deficiente. Talvez seja melhor colocar a questão no sentido que a revelação de Deus para Israel era progressiva e que Deus só manifestou as conseqüências
derivantes da Aliança pouco a pouco, educando o povo lentamente para prepará-lo à revelação evangélica.

2.4.2. As Histórias de Fatos Escandalosos
Às vezes a Bíblia conta fatos escandalosos, mas a exposição não é aprovação e sim desaprovação, se não expressamente, ao menos tacitamente. Além do mais a narração desse fato serve ao leitor como indicação de um perigo espiritual que deve ser evitado. Com relação a certos vocábulos que possam ferir alguém escrupuloso, se deve dizer que talvez, quando foi escrito, não tinha a conotação que hoje recebeu.

2.4.3. As Penas
Para as penas afligidas aos adversários dos justos (cf. Sl 35,3; 108,6-8; 51,7) precisa ter presente os seguintes princípios:
a) No AT vigorava a lei do talião, que dizia assim: “Vida por vida, olho por olho, dente por dente…” (Ex 21,23), e que exprimia o princípio que toda a culpa deve ser punida.
b) Geralmente as penas eram formuladas durante a oração: nela o homem pio confundia a sua causa pessoal com a causa de Deus, ou com a causa da justiça e da ordem; por isso quem pedia a punição exprimia o desejo de não existir mais inimigos de Deus.
c) Não podemos pretender da ética do AT o heroísmo de caridade fraterna que é prescrito no NT; a Lei Evangélica supera a lei antiga, o que não afirma que essa fosse ruim intrinsecamente.

2.5. Perigos Decorrentes da Teoria da Inspiração
A inspiração da Bíblia é um fato misterioso, como todas as ações que envolvem Deus e o homem reciprocamente. A busca de uma explicação “racional” pode dar origem a idéias falsas sobre esta realidade.
A colaboração entre Deus e o homem não foi um ditado no qual Deus dita ao homem. A Bíblia nos revela em cada página épocas, estilos, linguagens, interesses diferentes, que testemunham a personalidade dos autores que escrevem. Deus não instrumentaliza o homem: estimula e espera sempre uma colaboração a nível humano. Existem raros casos na Bíblia nos quais Deus ordena de colocar por escrito qualquer coisa (Ex 17,14; 34,27; Jr 36, 1-2), mas não dita nada.
Não se deve porém imaginar a inspiração como um encontro místico entre Deus e qualquer homem o qual escreve depois as suas reflexões, os seus pensamentos e suas experiências religiosas. Os autores humanos da Bíblia vivem em íntimo contato com o seu povo, participam da sua história e de sua fé e escrevem para interpretar a primeira e alimentar a segunda.
A inspiração, finalmente, não é também entendida no sentido que Deus tenha feito escrever só uma parte da Bíblia (as perícopes de mais elevada religiosidade, verdades mais sublimes) deixando o resto ao autor humano. Não existem, no livro sagrado, textos só de Deus ou só do homem. Na Bíblia tudo é de Deus e tudo é do homem.

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