A Batalha Contra os Amalequitas

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Ocupando a parte central no Êxodo está episódio do Mar Vermelho, que se divide em mais de um sentido.

Literalmente as águas do mar são divididas, e metaforicamente a história dos Israelitas também é dividida em duas partes; antes e depois do mar.

Antes, o povo ainda estava no território de Faraó, ainda estavam ao seu alcance. Tal fato permitiu que Faraó, com seus carros de combate, os perseguisse até os limites territoriais do Egito.

Agora, uma vez que eles tenham atravessado o mar, os Israelitas teriam ultrapassado uma fronteira sem volta. O povo estava agora em uma terra que a ninguém pertencia, o deserto. E não é surpreendente que no deserto, uma terra que não pertencia ao homem, eles possam experimentar com claridade a soberania e o poder de Deus.

Israel se tornava assim a primeira nação a ser governada diretamente por Deus. Desta forma, o Mar Vermelho se constituiu em uma espécie de “espaço liminar” – uma fronteira entre dois domínios que, se cruzada, leva alguém a um novo modo de “ser”.

Neste caso, a fronteira seria entre o domínio do governo humano para o divino.

a batalha contra os amalequitasOs Amalequitas Atacam os Israelitas

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Mas o simbolismo do Mar Vermelho não termina aí. Ele se assemelha muito a uma antiga cerimônia, quando se fazia uma aliança. E o verbo principal que descreve o ato de fazer essa aliança é “cortar”.

Um animal, ou mesmo vários, eram divididos ao meio e os indivíduos, que faziam a aliança, andavam pelo meio das partes. A divisão das metades simbolizava a união entre pessoas, nações e povos. Neste sentido, uma passagem crucial é a aliança que foi “cortada” entre Deus e Abraão.

“E disse-lhe: Toma-me uma bezerra de três anos, e uma cabra de três anos, e um carneiro de três anos, uma rola e um pombinho. E trouxe-lhe todos estes, e partiu-os pelo meio, e pôs cada parte deles em frente da outra; mas as aves não partiu…

Então disse a Abrão: Saibas, de certo, que peregrina será a tua descendência em terra alheia, e será reduzida à escravidão, e será afligida por quatrocentos anos,

Mas também eu julgarei a nação, à qual ela tem de servir, e depois sairá com grande riqueza…

E sucedeu que, posto o sol, houve escuridão, e eis um forno de fumaça, e uma tocha de fogo, que passou por aquelas metades.

Naquele mesmo dia fez o Senhor uma aliança com Abrão, dizendo: tua descendência tenho dado esta terra, desde o rio do Egito até ao grande rio Eufrates;” Gênesis 15:9-18

E no Mar Vermelho, divido ao meio, os Israelitas passam entre as suas metades, em um tipo de confirmação da aliança entre Deus e Abraão. E eles passam também de um domínio para outro, de serem servos de Faraó para serem agora עֲבָדִים avadim, servos de Deus.

A travessia do Mar Vermelho confirmou a aliança entre Deus e Abraão e também se constituiu em uma transferência de propriedade. Os Israelitas são agora possessão eterna do Senhor. Agora o povo entrou em um novo território, tanto geograficamente como existencialmente falando.

E qual o significado disso? Que diferença isto faria na vida do povo de Deus? A resposta não segue muito a lógica normal deste mundo. Para a entendermos, temos que examinar duas batalhas, uma ocorrida antes e outra depois do evento do mar.

A primeira batalha foi marcada por uma enorme passividade por parte dos filhos de Jacó. Depois de deixar que os Israelitas partissem, Faraó muda de ideia e os persegue usando seus mais de seiscentos carros de combate. E naquele tempo, uma carruagem puxada por um cavalo era a arma de guerra mais moderna que existia.

Nos tempos bíblicos o Egito era a nação de maior fama, por causa de seus cavalos. Nenhuma outra nação podia competir com eles. Os cavalos davam aos Egípcios a velocidade, e as carruagens a proteção necessária para o combate.

Seiscentos carros de combate se aproximando- isto deve ter sido uma visão terrível para uma multidão desorganizada, um grupo de escravos peregrinando pelo deserto.

Pela visão natural dos fatos, era de se esperar que os Israelitas acusassem Moisés de tê-los trazido ao meio do nada, para serem executados pelos soldados de Faraó. Mas Moisés tinha uma visão que ia para além do natural:

“Moisés, porém, disse ao povo: Não temais; estai quietos, e vede o livramento do Senhor, que hoje vos fará; porque aos egípcios, que hoje vistes, nunca mais os tornareis a ver.

O Senhor pelejará por vós, e vós vos calareis.” Êxodo 14:13-14

O que Moisés está dizendo ao povo pode ser traduzido como “não façam nada, Deus fará tudo por nós!” A batalha contra os Egípcios não foi um ato humano, foi divino.

Já a batalha contra os Amalequitas aconteceu após a passagem pelo Mar Vermelho. Aqui, há a participação e o engajamento específico dos Israelitas no combate:

“Então veio Amaleque, e pelejou contra Israel em Refidim.

Por isso disse Moisés a Josué: Escolhe-nos homens, e sai, peleja contra Amaleque; amanhã eu estarei sobre o cume do outeiro, e a vara de Deus estará na minha mão.

E fez Josué como Moisés lhe dissera, pelejando contra Amaleque; mas Moisés, Arão, e Hur subiram ao cume do outeiro. E acontecia que, quando Moisés levantava a sua mão, Israel prevalecia; mas quando ele abaixava a sua mão, Amaleque prevalecia.

Porém as mãos de Moisés eram pesadas, por isso tomaram uma pedra, e a puseram debaixo dele, para assentar-se sobre ela; e Arão e Hur sustentaram as suas mãos, um de um lado e o outro do outro; assim ficaram as suas mãos firmes até que o sol se pôs.

E assim Josué desfez a Amaleque e a seu povo, ao fio da espada.” Êxodo 17:8-13

moisés levanta suas mãosMoisés Levanta as Suas Mãos e Conduz o Olhar para o Alto

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Nesta luta, o milagre não se dá da forma usual, como no Egito. O texto afirma categoricamente que os Israelitas lutaram e venceram. A única referência ao sobrenatural está em torno das mãos de Moisés. De alguma forma, elas estavam ligadas à chave para a vitória.

Quando Moisés levantava as suas mãos os Israelitas prevaleciam, mas quando as abaixava era Amaleque quem prevalecia.

A Tradição Oral, por meio da Mishna – um livro que contém as Leis bíblicas – traz um comentário interessante e surpreendente sobre esta passagem:

“Está escrito, “E acontecia que, quando Moisés levantava a sua mão, Israel prevalecia.” Agora, foram as mãos de Moisés que lutaram e esmagaram o inimigo? Obviamente que não.

O texto significa que tão logo os Israelitas tenham voltado seus pensamentos para o “alto”, e sujeitado seus corações para o Pai que está nos céus, eles prevaleciam, mas quando faziam de outra forma eles perdiam.”

Com esta afirmação, a Mishna nos ensina que nesta guerra Deus fez a diferença não pelo exterior, no campo de batalha, mas no campo interior, dentro de cada um dos filhos de Jacó. As mãos de Moisés não realizaram um milagre “externo”, palpável ou visível.

As mãos de Moisés apontavam para o alto. Elas “direcionavam” o olhar e os pensamentos do povo de Deus para o céu. Isto deu a eles força e coragem, esperança e fé para derrotar o inimigo.

Um lindo simbolismo de que é muitas vezes necessário “olhar para cima” para se vencer batalhas, pois o nosso socorro vem ao alto.

“Levantarei os meus olhos para os montes, de onde vem o meu socorro. O meu socorro vem do Senhor que fez o céu e a terra.” Salmos 121:1-2

E aquele que renova as nossas forças e nos dá a paz, a fé para continuar a nossa jornada em direção à nossa terra prometida que está nos céus, um dia também foi levantado. É preciso olhar para cima para poder contemplá-lo:

“E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado;” João 3:14

Voltando ao texto, este evento era algo que completava uma transição da qual o livro do Êxodo se refere o tempo todo. Deus havia, antes da batalha contra os Amalequitas, realizado milagres extraordinários em favor do Seu povo.

E o maior e mais glorioso deles todos, a divisão das águas do Mar Vermelho, fez com que eles ao menos por uma vez cressem no Senhor.

“E viu Israel a grande mão que o Senhor mostrara aos egípcios; e temeu o povo ao Senhor, e creu no Senhor e em Moisés, seu servo.” Êxodo 14:31

Mas a “mudança” em seus corações não durou muito, três dias depois eles estavam novamente murmurando por causa de água. Depois eles murmuram por causa de comida. E um milagre segue o outro. As águas amargas são transformadas em água potável; chove pão do céu, literalmente.

E eles partem para Refidim onde novamente não há água, e o povo volta a murmurar de uma forma que o próprio Moisés se surpreende:

“E clamou Moisés ao Senhor, dizendo: Que farei a este povo? Daqui a pouco me apedrejará.” Êxodo 17:4

Deus então faz sair água da rocha, mas a ingratidão permanece nos corações e mentes dos Israelitas. Moisés por isso chama aquele lugar por nomes bem sugestivos:

“E chamou aquele lugar Massá e Meribá, por causa da contenda dos filhos de Israel, e porque tentaram ao Senhor, dizendo: Está o Senhor no meio de nós [בְּקִרְבֵּ֖נוּ bekirbenu], ou não?” Êxodo 17:7

E logo em seguida, no versículo seguinte nós lemos “Então veio Amaleque, e pelejou contra Israel em Refidim.” Êxodo 17:8. Há obviamente uma conexão entre as duas passagens. A falta de fé dos filhos de Jacó é repreendida.

Tendo-os protegido e sustentado de todas as formas milagrosas até ali, Deus dá aos Israelitas uma pequena demonstração do que seria a vida sem a Sua proteção. A leitura superficial do texto mostra que o povo estaria exposto a grandes perigos.

Entretanto, em uma camada mais profunda encontramos uma eminente ironia. A palavra hebraica בְּקִרְבֵּ֖נוּ bekirbenu tem dois significados. Ela pode ser traduzida como “no meio de nós” (com sentido espacial ou físico); e também pode ser traduzida como “dentro de nós” (no sentido psicológico ou espiritual).

O significado real da batalha contra os Amalequitas, conforme o entendimento da Tradição Oral, é que ela mostrou a dimensão interior, a dimensão espiritual e emocional da Divina Presença.

Os Israelitas venceram esta batalha não porque Deus lutou por eles, mas porque Deus os deu força para lutarem a peleja. Deus não estava “no meio deles”, na verdade o Senhor estava “dentro deles”. Esta foi uma significante mudança do antes e do depois da travessia do Mar Vermelho.

E representa o chamado supremo do Criador à responsabilidade humana. Deus quer que lutemos com fé as nossas batalhas. Deus está dentro de nós, não importa o tempo e o lugar, não devemos temer:

“Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam.” Salmos 23:4

E isto nos ensina que há um chamado para exercermos a coragem, determinação, imaginação, confiança e fé, que nos permite chegar ao status completo de sermos a imagem e semelhança de Deus.

O livro do Êxodo nos traz essa mesma lição na forma de três narrativas. A primeira é a divisão do Mar Vermelho, seguida pela revelação no Monte Sinai e no Tabernáculo, e depois na primeira e segunda tábuas de pedra que Moisés trouxe do Sinai.

Nos três casos nós temos uma narrativa dupla, do antes e depois. Em cada narrativa-dupla, a primeira é sempre um ato concebido inteiramente por Deus – a derrota dos Egípcios no Mar Vermelho, a revelação no Sinai e a primeira Tábua da Lei entregue a Moisés.

A segunda narrativa é um misto, uma parceria entre Deus e o homem – a batalha contra os Amalequitas, a construção do Tabernáculo e a segunda Tábua com a Lei que foi entalhada por Moisés e escrita por Deus.

A diferença entre essas narrativas é imensa. Na primeira de cada caso, fica evidente o poder de Deus e a passividade humana. Na segunda, o que conta é a internalização da vontade de Deus, pelo ser humano. Deus é visto na condição de professor. O ser humano é ensinado a “caminhar com as próprias pernas”.

Esta mensagem está contida na simples palavra עבד eved, que a Torá usa para os hebreus quando ainda eram escravos no Egito, que pode significar tanto “servo”, quanto “escravo”.

No Egito os Israelitas eram עֲבָדִים avadim, servos de Faraó. Deixando o Egito, agora se tornaram avadim de Deus. Porém, esta diferença não fica restrita a uma mera troca de Senhores.

O escravo de um outro ser humano é alguém que perdeu a sua liberdade. Já um servo do Senhor é alguém que recebeu o chamado para a liberdade. E liberdade requer mudança.

“O Espírito do Senhor é sobre mim, Pois que me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os quebrantados de coração, A pregar liberdade aos cativos, E restauração da vista aos cegos, A pôr em liberdade os oprimidos, A anunciar o ano aceitável do Senhor.” Lucas 4:18-19

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